segunda-feira, 5 de julho de 2010

Rivadávia Serafim da Silva

Rivadávia Serafim da Silva, o “Rivinha” ou “Músico Justiceiro” como ficou conhecido, nasceu no Nordeste em 1965, veio para São Paulo com 25 anos de idade em busca de uma vida melhor. Atualmente com 45 anos, vive na Penitenciária Doutor Augusto Cesar Salgado que está localizada na cidade de Tremembé, São Paulo, mas esteve preso no COC, Centro de Observações Criminológicas (complexo Carandiru), até sua desativação em 2002. Ele cumpre pena de 150 anos de reclusão, acusado por duplos e triplos homicídios qualificados. Crimes que não assume como de sua autoria. Atuou na região norte da cidade de São Paulo no início dos anos 80 (entre 1982 e 1984). Quando chegou em São Paulo, no início dos anos 80, Rivinha foi morar com sua primeira esposa, na Favela Marconi e Funerária, localizada na Vila Maria, região Norte de São Paulo. A favela Marconi não difere de qualquer outra favela: formada, principalmente, por pessoas provenientes do nordeste do país e do sul de Minas Gerais que, expulsas do campo por uma questão de sobrevivência, procuram a cidade de São Paulo. Na favela Marconi quem mandava eram os criminosos, que, por barbarizavam a população. A ação dos justiceiros é uma característica urbana, dos bairros onde a proteção policial é ineficiente. A criminalidade nesses bairros é bastante intensa. Em alguns deles, a população tem que pagar “pedágio”, para os traficantes ou criminosos, para que possam ter acesso às suas casas. Além disso, há ainda o toque de recolher e a obediência servil aos criminosos. Não é raro, as mulheres serem estupradas pelos traficantes e não haver punição. A polícia na maioria das vezes conhece toda essa situação, mas não tem preparo, armas e equipamentos suficientes para tomar alguma atitude. Com esse subterfúgio a polícia faz vistas grossas ao problema. Os justiceiros nascem em meio a essa disparidade, onde a polícia só atua nos bairros nobres, deixando a periferia desprotegida. Após sofrer algum tipo de injustiça, esses homens resolvem fazer a justiça com suas próprias mãos. É o conhecido jargão: matar ou morrer. Essa questão aparece claramente nas falas de Rivinha. As histórias de justiceiros são sempre muito parecidas, começam se vingando de uma injustiça que foram vítimas, buscam apoio do Estado e não recebem esse apoio. São incentivados pela comunidade a se vingarem e logo fazem a primeira vítima, participando de um ciclo de mortes e apoio da comunidade. Rivinha se tornou um justiceiro conhecido por toda a cidade de São Paulo. A atuação desses justiceiros foi aparentemente tolerada pela policia e alguns deles, apresentaram carreiras profissionalizadas e de longa duração. De fato, Rivinha teve muita fama na época em que atuava. Essa fama, contudo, deu-se quando ele resolveu, ainda em liberdade, dar uma entrevista à Rede Globo de Televisão, para explicar melhor porque cometia os assassinatos. Por ter se tornado conhecido acabou sendo responsabilizado por vários crimes que não cometeu. Certa vez Rivinha disse: Fiquei mais com fama, fama, fama, hoje eles falam que eu matei 200 pessoa, falaram que eu matei 60, vem os repórter e fala que eu matei 100, outros falam que eu matei, ninguém sabe da minha história, ninguém sabe da vida, agente conta, conta, não é nada disso, não é por aí. Rivinha afirmava que não existia um grupo liderado por ele. Zé Magrela e Didi, que também eram acusados de múltiplos crimes, eram seus amigos e foram vítimas do mesmo tipo de violência sofrida por ele. Quando se encontraram, decidiram se juntar para fazer o que consideraram justiça. Segundo ele: Didi e Zé Magrela eram nordestinos e também estavam lá sendo humilhados como ele. Didi morreu na cadeia com 50 facadas vítima dos criminosos que eles amarravam no poste e entregavam para a polícia, Zé Magrela, segundo Rivinha sumiu e não se soube mais notícias. Quando perguntado sobre o uso ou o tráfico de drogas, Rivinha se coloca contrário ao uso e afirma que nunca se envolveu com traficante. Inclusive em sua análise Rivinha considera que o tráfico de drogas tenha “invadido” os bairros e que provavelmente hoje nem existam mais justiceiros. Nos casos de justiceiros e também de matadores, a questão da honra, virilidade e masculinidade são fundamentais. A função da masculinidade e da virilidade se dá pela defesa da honra. É um assunto social, que relaciona homens ou grupos dividindo os mesmos valores. Há na cultura brasileira, especialmente nas camadas populares uma valorização da masculinidade. Os homens impõem a virilidade defendendo a sua honra e sua moral. Desde criança aprendem que, se apanharem na rua, também apanham em casa. Pois para ser homem tem que saber se defender e não levar desaforo para casa. Essa valorização da masculinidade está muito presente na formação do povo brasileiro. Quando Rivinha conta que sua mulher foi violentada na sua presença, significa que a afronta dos criminosos foi à sua moral. Essa ação dos criminosos está repleta de significados morais, onde se coloca o desafio que exige vingança daquele que não tiver medo e for Homem para limpar sua honra. Esse “desafio” proposto pelos criminosos exige uma resposta, incitou-se a vingança. Um dos códigos bem conhecidos entre os criminosos é o da “lei do silêncio”, não se denuncia um criminoso em nenhuma hipótese, a não ser que esteja disposto a enfrentar as conseqüências. Rivinha denunciou os criminosos e por ter ido a polícia, ficou jurado de morte. Ele disse que trabalhava honestamente e que resistiu antes de aceitar a arma e atirar nos bandidos da favela que morava. Porém, segundo ele, começou a ser caçado por ter denunciado os criminosos para a polícia. Matou a primeira vez, para não ser morto. Segundo ele, antes de matar ele foi caçado, sua mulher grávida foi baleada e perdeu a criança, seu irmão adotivo foi morto, foi ai que ele matou pela primeira vez, um rapaz chamado Suel, que vivia o ameaçando. Quando afirma que matou para não ser morto, Rivinha também expõe uma situação criada ao seu redor, onde matar não é um ato simples e fácil. Rivinha diz sempre que se tornou justiceiro por não ter opção, é “matar ou morrer”, a todo momento remonta que onde morava não havia lei, nem tão pouco justiça. Nas falas de Rivinha, fica bastante claro que trabalhador pai de família, não merece morrer. Para os justiceiros quem não cumpre essas qualificações ou é criminoso, ou vagabundo, ou marginal. Por isso, morre ou tem que ser preso. Marginal é aquele que rouba, estupra, cobra pedágio de moradores e mata pai de família e trabalhador. Quando entrevistados, os justiceiros sabem e assumem que são criminosos, tanto quanto são criminosos aqueles que eles mataram. Porém, o fato de só matarem “quem não presta”, não aceitarem crimes por encomenda e no caso de Rivinha, nunca ter matado nem mulher nem criança, serve como justificativa para distinguir e amenizar seus atos. Segundo essa idéia de que o trabalho é sinônimo de honestidade e antônimo de violência, há uma forte matriz ideológica da sociedade moderna. Rivinha coloca que não deixou de trabalhar, isso é que o diferenciava dos outros criminosos. Com sua popularidade crescida, os moradores da comunidade por respeito ou medo, se mostravam trabalhadores. Mas o pensamento de Rivinha mostra como que na violência há um ciclo do caos, sobretudo nesses bairros onde o que pondera é ação de criminosos. Ao mesmo tempo em que ele e seus amigos, em um primeiro momento, “limpam” o bairro dos criminosos indesejáveis, são eles mesmos que instituem novamente o medo e a insegurança nos moradores, que vêm necessidade de se mostrarem trabalhadores para não serem mortos. A senha para a pseudotranqüilidade é o trabalho. Para os justiceiros, trabalhar e fazer a justiça significa não ser criminoso nem bandido, mesmo ele próprio sendo o agente da violência, essa ação de matar somente os criminosos tem uma finalidade: impor e manter a ordem. A ação de Rivinha na comunidade não elimina a violência, na medida em que reproduz a violência para combater o que ele chama “os criminosos que barbarizavam”, portanto a violência é um mecanismo de enfrentamento da própria violência. “É impossível não usar de violência quando se quer liquidá-la. Mas justamente por isso, ela é interminável. As atitudes dos justiceiros em relação à violência têm toda uma conotação moral, reproduzindo os valores de uma sociedade conservadora, que determina quem são os bons ou maus cidadãos. Os justiceiros são reflexos e produtos dessa sociedade, usam do poder que eles próprios se conferem para fazer uso da violência e serem eles próprios vítimas dela.

7 comentários:

  1. Acho que este é o desejo da maior parte das pessoas honestas deste país, mas não o fazem para não irem para a cadeia. Já que a polícia não cumpre o dever dela , o jeito seria fazer justiça com as próprias mãos. É mais ou menos como aquela série de filmes com Charles Bronson: Desejo de matar, que por sinal são os meus filmes prediletos. Injustiça foi o que fizeram com ele, deveria ser condecorado. Agora no caso dele a polícia resolveu se mexer e a "justiça" também.

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  2. tinha que ter mais rivinha no Brasil...

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  3. Infelizmente a polícia nao consegue cumprir com seu papel, que pelo despreparo e falta de condicoes faziam vistas grossas com essas atitudes de criminosos, tanto que a situacao do ´´justiceiro`` foi a repudia da impunidade onde o trabalhador de bem que vive em locais como estes por falta de condicoes, nao tem como se defender e nem pra onde ou a quem recorrer, talvez tenha sido bom ou ruim esse fato, mas e se nao houvesse o ´´justiceiro`` talvez a comunidade estive ainda pior, por mais que possa haver esta afronta de moradores contra a criminalidade, ainda persiste o crime e claro a impunidade, sendo a polícia só se localiza nos locais de maior poder aquisitivo claro, nao quer correr riscos de enfrentamento. Quem sabe um dia isso mudo e nao é da justica humana, que nao consegue cuidar de sua populacao, e também deve haver varios interesses políticos por de tras disso, até o filme tropa de elite retrata bem isso.

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  4. Rivinha botou ordem no Jardim Andarai.
    Acabou com a ratazanas que assustavam a população.

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  5. Rivinha botou ordem no Jardim Andarai.
    Acabou com a ratazanas que assustavam a população.

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